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Homem Polvo, desenhos de Itamar Assumpção

Homem Polvo - Desenhos feitos pelo Itamar Assumpção.

Sei dos caminhos, Alice Ruiz - Itamar Assumpção

Sei dos caminhos que chegam, sei dos que se afastam
Conheço como começa, como termina o que faço
Só não cheguei como chegar
Ao nosso próximo passo

Ontem, meu bem, contei até cem
Hoje já não sei
Hoje já não sei

Ontem, meu bem, contei até três
Hoje eu só pensei
Hoje eu só pensei

Sei que me encontro sozinho
Sei também quando me acho
Sei tudo o que você acha
O buraco é mais embaixo
Foi um achado te achar
Perdido acho diacho

Meu bem, porque não vens que tem
Ontem eu pensei
Ontem eu pensei

(Itamar Assumpção, Alice Ruiz)

Itamar Assumpção

Negro, alto e esguio, usava trajes exóticos, punha no rosto óculos de armações bizarras. Poeta, compositor, arranjador, foi um artista completo. Era “imperativo”, não no sentido monárquico da expressão, mas no sentido anárquico, performático e complexo do termo. 

Arredio em entrevistas, no palco era muitas vezes mordaz e agressivo com a platéia, do mesmo modo, com os companheiros de “Isca”. Rotulado de “maldito” pela mídia, por inúmeras boicotagens, e autos-boicotes, Itamar abriu mão de contratos com gravadoras de grande porte, para unicamente, sacudir o coreto, sem assinar a carteira. 

Nascido na cidade de Tietê, interior paulista, assim como o rio homônimo à urbe, Itamar atravessou todo o estado, na ginga dos meandros, esquivando-se disso e daquilo. Em Arapongas, no Paraná, lugar que morou desde a partida da cidade em que nasceu, participou de peças teatrais, cultivou orquídeas, para só posteriormente, no início dos anos 70, vir para São Paulo. 

Passado alguns anos desde sua chegada na capital paulista, no final da década, desembocou na praça Benedito Calixto, no festival “Feira da Vila”. Morou em vários locais da região central, para em fim, criar raízes no bairro da Penha, zona leste de Sampa.

Parceiro dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz, as composições do “Pirata de Tietê” eram construídas, sob a armação polissêmica, de um genuíno poema. Segundo a jornalista Paula Palumbo, “Leminski disse à Itamar que ele era poeta. Discutiram, claro, mas por fim, há poesia sobrando no discurso irônico, romântico, passional de Itamar”.

Dor Elegante, Itamar Assumpção / Paulo Leminski

Itamar Assumpção tocando "Dor Elegante" (Paulo Leminski), em sua casa.
Cena da série de documentários "Mapas Urbanos", com direção de Daniel Augusto.

Z da Questão, Itamar Assumpção

Fiz essa canção com versos vulgares, não sei pra dar-lhes
Sou poeta não, só vim só entregar, só vim cantar-lhe
Eu não sou Romeu nem Ulisses, nem de longe o Mago de Oz
Nem Zeus, nem Jesus, nenhum Deus, nem Eros, Platão ou Sócrates

Às vezes me afundo, fico reclamando de tudo, de todo mundo
Bate um desespero ver alguém matar alguém
por meros trinta dinheiros
Fato corriqueiro, mas não me acostumo, nem gosto do cheiro
Complicado o que? Sou assim aqui Viena ou Milão
Na Penha São Paulo, na estrela vésper, n'algum lugar do Japão
Shyiwacê wa shita ni teral no rana no chita me

Ser ou não feliz, existe um ditado por aí que diz
A felicidade fica bem debaixo do nosso próprio nariz

Meu amor, porque que todo o tempo você toma conta do meu pensamento
Até nos lugares que ando e freqüento, o teu cheiro chega vindo com o vento
Fica ardendo, me comendo lá no fundo
Cada segundo, cada minuto, cada momento..

Sei lá eu porque te quero tanto, só sei que vai dar pra lá do infinito
É bem parecido com o fim do mundo, o teu nome sobre os muros deixo escrito
Fica ardendo, me comendo lá no fundo
Cada segundo, cada minuto, cada momento..

Quanto mais te evito mais eu te encontro, quanto mais eu fujo mais eu te desejo
Posso até ficar ficando doido, mas meu coração está bem lúcido
Fica ardendo, me comendo lá no fundo
Cada segundo, cada minuto, cada momento.

Apaixonite Aguda, Itamar Assumpção

Quando estou longe
Quero ficar perto

Quando estou perto
Quero ficar dentro

Quando estou dentro
Quero ficar mudo

Quando estou mudo
Quero dizer tudo

Beleléu, Leléu e Eu, Itamar Assumpção

BELELÉU, LELÉU, EU (Versão Original)
Lira Paulistana, 1980.

Francisco José Itamar de Assumpção nasceu em Tietê, SP, em 13 de setembro de 1949. Itamar Assumpção já acompanhava Arrigo Barnabé ainda em Londrina, participou da banda “Sabor de Veneno” em São Paulo, experimentou a mistura do rock com samba e funk, criando uma linguagem urbana, trazendo ainda na bagagem sua experiência como ogã no terreiro de Candomblé de seu pai. Itamar compunha apoiado na linha do contrabaixo ("[...] componho para o contrabaixo. Não é harmonia, acorde, são só notas" [1]).

Poeta e músico genial, viveu à margem da mídia, recusando-se inclusive a editar suas músicas e a entrar no que chamava de sistema. Faleceu vítima de câncer, em 12 de junho de 2003 - mais do que um grande compositor, o Brasil perdeu um gênio, um mito, aquele que mais inovou a música paulista.

01 - vinheta I - 
02 - luzia - 
03 - fon fin fan fin fun - 
04 - fico louco - 
05 - aranha - 
06 - se eu fiz tudo - 
07 - vinheta II e III - 
08 - baby - 
09 - embalos - 
10 - nega musica - 
11 - beijo na boca - 
12 - nego dito -

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[1] Depoimento de Itamar Assumpção para Patrícia Palumbo, in Vozes do Brasil.
Biografia: trecho da dissertação de Mestrado em História de Carô Murge

Embalos, Itamar Assumpção


Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia tocando "Embalos"
"Embalos", Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, ao vivo, 1983.
Letra e música de Itamar Assumpção. Vocais: Itamar Assumpção, Suzana Salles e Virgínia Rosa.
Guitarra: Luiz Rondó Monteiro. Baixo: Paulo Lepetit. Bateria: Gigante Brasil.

Entrevista: Itamar Assumpção, Hermeto Pascoal

Itamar Assumpção, Hermeto Paschoal, Serginho Groisman - Gazeta tvmix4 - 1988

Prezadíssimos Ouvintes, Itamar Assumpção

Custa Nada Sonhar, Itamar Assumpção e Paulo Leminski

Vem ó minha amada vem me dê a mão
E vamos sair por aí pra ver os preços

Vamos ver se o do queijo ainda é o mesmo
Que vimos ontem quando eu te roubei um beijo

Entre um reajuste e um ágio
Eu atacado você varejo

Te levarei para ver como tudo foi remarcado
Desde que nossos corações bateram juntos
Ao pagar o supermercado

Ao pôr do sol você me dirá
Olha meu amor como tudo sobe
Meu coração por ti até as estrelas

Mas vem minha amada vem
E morre comigo antes que até
Morrer fique mais caro

Amanticida, Itamar Assumpção

A gente nasce, vai crescendo, crescendo... até atingir a adolescência.
Começa um fogo por dentro, que vai queimando,
E uma inexplicável e violentíssima atração pelo sexo oposto.
Dai até a morte é um Deus-nos-acuda.

Eu vivo tentando saber por que teu bem-me-quer de mulher
Me mata, e me acende, quando você bem entende.
Me arrasta daqui pra Bagdá. Me empurra pra lá, me puxa pra cá,
Me agita, me sacode... Você me deixa grogue.

Emito intrépidos grunhidos de felicidade.
Me masca, estica, tira o doce. Depois me cospe, me liga, me desliga,
Liga lâmpada de poste. Me bate três vezes por dia,
Bate forte, mais dez da noite. Provoca esquizofrenia
Tanto que me bate. Me dá pontapés.
Me dribla pra lá, parece Pelé, no Morumbi, Maracanã, Pacaembu.
Escracha, roga praga, enrosca, mete a boca...
Me rasga a roupa, louca, vampira, amanticida,
Fera, bruxa, madrasta, amanticida... homem, mulher...
Amada que mata amante.

Aculturado, Itamar Assumpção

Culturalmente confuso
Brasi lei ro é aculturado
Líbio, libanês, árabe turco
Acha farinha do mesmo saco

Não saca croata, curdo
Não saca iugoslavo
Nem belga, nem mameluco

Não saca Platão, nem Plutarco

Não saca que um cafuzo
Mest iço não é mulato
Que api to toca o Caruso
Que api to toca Bach

Não saca sueco, luso
Egípcio, tchecoslovaco
Kafka, Freud, Confúcio
Não saca que russo é cossaco

Itamar Assumpção e Isca de Polícia - 1983 - parte 1